Desapego

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Eu era uma pessoa muito materialista. Na verdade, posso explicar melhor essa questão e assumir que era apegada às minhas coisas. Isso não é uma coisa fácil de relatar. A psicologia de alguma forma deve explicar o motivo que desde criança amava organizar caixas, minhas coisas, potinhos… e me apegava a tudo isso. Sinceramente, nem lembro do que me vinha à cabeça quando falavam em desapego. Talvez fosse muito nova para isso.

Na adolescência não foi diferente. Se alguém mexesse em alguma coisa no meu armário ou quarto, eu sabia. Poderia deixar como eu tinha colocado anteriormente, mas eu saberia mesmo assim – para raiva da minha mãe.

Um dia, conquistei coisas, coisas que eu tinha muito orgulho. De repente, como se fosse no dia seguinte, eu perdi coisas. Ali eu aprendi a lição que eu poderia organizar, colocar em potinhos, planejar e achar que eu tinha todo o controle da situação, mas era tudo falso: eu não tinha o controle. 

Voltei a querer conquistar coisas – muitas e melhores, por sinal. Eu tinha uma necessidade de demonstrar que eu estava bem após algumas perdas. Na verdade, eu queria mostrar: estou melhor que antes. E aí, começa aquele ciclo de conquistas, conquistas e conquistas. Compras, compras, compras, Imagem, imagem e imagem. Likes, queremos likes, vivemos de likes.

Até que percebi que conquistava posições, o que denominava-se sucesso, e a ansiedade que isso me gerava, eu descontava em conquistas materiais. Conquistas gastronômicas, conquistas…. Compensação! Já ouviu falar nisso? Essa palavra vem no sentido de recompensa. Por exemplo: “Estou muito estressada por causa do trabalho. Vou no shopping: volto com bolsas, sapatos, roupas e como em um restaurante caro”. Por que fiz tudo isso? Porque merecia. Olha o quanto eu luto para conquistar coisas, eu preciso de um mimo.

Estou longe de dizer que não precisamos nos mimar. Mas, existe uma linha muito tênue de quando estamos nos amando ou quando estamos tentando tapar uma vida estressante, cheia de buracos, recheada com a ansiedade e o frisson do ter, ter, ter e… parecer.

Tudo sempre pareceu muito correto e honesto. Eu não estava prejudicando ninguém – só a mim mesma, sem perceber. Até que comecei a de fato adoecer. Me senti sufocada, chorava todos os dias por não estar me sentindo realizada profissionalmente. Eu conseguia comprar, comprar e comprar e nem usava as coisas. Até que decidi ir atrás do que eu acreditava ser a minha felicidade. Fui obrigada a redefinir alguns valores de segurança, de propósito de vida e trabalho. Tive que diminuir meus gastos, poupar dinheiro e pensar melhor sobre minhas atitudes.

Você acha que foi do dia para à noite? Nada disso. Você acha que piscou uma luz na minha cabeça e… tcharam? A resposta também é não.

O início do processo de mudança tem várias etapas. Não é numa virada de chave que mudamos hábitos, desapegamos das coisas que carregamos e tomamos novas escolhas de vida. Existe um processo.

Se eu pudesse listar como tudo isso acontece, essa seria minha lista:

a) O primeiro passo é o desconforto. É você sentir que tem algo de errado e não se conformar com isso.

b) Descoberta. Esse é o passo mais longo. Um processo que costuma ser demorado. Isso porque muitas vezes achamos que é uma coisa que nos incomoda, mas na verdade é outra. Nessa fase é preciso mergulhar em autoconhecimento.

c) Achados e razões. Nessa etapa você começará a entender seus hábitos, motivos e crenças que te levam à fazer determinadas coisas.

d) Ação. Depois de todo esse caminho percorrido é o momento de agir. Mudar o que precisa, eliminar o que não faz sentido e experimentar novas coisas.

e) DESAPEGAR:

  1. .
    bitransitivo e pronominal
    tornar(-se) desafeiçoado ou menos afeiçoado a.
  2. bitransitivo e pronominal
    fazer perder ou perder o envolvimento, a dependência ou o compromisso com; afastar(-se), libertar(-se).
    Tem coisas que não nos acrescentam mais e queremos carregar conosco. Por isso, é importante desapegar. Muitas vezes carregamos mochilas pesadas demais – sem necessidade, por simples APEGO.

Desapegar é algo libertador. Desapegar do passado, de coisas, de hábitos, lembranças, sentimentos…

Para ódio, raiva… libere o perdão.

Para objetos que não fazem sentido na sua vida, faça doações ou jogue fora – o que você achar melhor. 

Para amores que não são recíprocos, deixe-os ir. Mentalize e deseje a felicidade, a paz e a reciprocidade na vida.

Quando você descobre suas motivações e o porque das atitudes, sua forma de pensar e agir mudam.

Falo por mim, em momentos de ansiedade me dá uma vontade louca de comer coisas nada saudáveis. Quando esse gatilho dispara no meu cérebro, eu começo a trabalhar a ansiedade e a conversar comigo mesma para desligar esse alerta que tenta me convencer de que preciso urgentemente de quilos de açúcar para ser feliz.

Quando me dá vontade de comprar alguma coisa, eu me pergunto: “Eu preciso realmente disso? Isso vai mudar minha vida e fazer diferença de alguma forma? Quais são minhas motivações para ter isso?” Na maioria das vezes, sinto que minhas vontades de comprar passam, pois eram apenas necessidades falsas.

Depois de um tempo de prática, se torna mais fácil perceber essas sensações e tomar as rédeas da sua vida. O desapego se torna mais fácil também. Você começa a não querer carregar sentimentos ruins e se desapegar de bens materiais vira um processo rápido. É incrível.

E você precisa desapegar do que?