Sobre o amor e outras coisas…

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Sexta-feira. Semana intensa. Uma noite mal dormida e um céu nublado, era um dia muito convidativo para ficar em casa.

A vida não é assim…

Sem criatividade para escolher o que vestir, vamos no básico: calça jeans e tênis. Ah, não poderia esquecer de mencionar os óculos escuros para disfarçar as olheiras de apenas três horas de sono. Que dia lindo para brilhar, só que não.

Perdeu duas vezes o ônibus. Realmente, um dia ótimo para sair de casa!

Pelo menos o que conseguiu pegar tinha lugar para sentar. Sozinha. Banco unitário. Perfeito. O problema era que tinha um banco duplo virado de frente para o dela. Fica a esperança de que ninguém sente ali. Antissocial.

Dentro da viagem mental e de suas reflexões, uma pausa para notar que entrou um homem com deficiência visual no ônibus. Aquele momento que ela pensa: e se fosse eu… será que seria tão corajosa? Ela tem a certeza de que não enfrentaria o mundo. Por isso, sempre que encontra essas pessoas valentes, as admira. Tamanha força de vontade e sensibilidade que possuem.

Aquele homem passa pela roleta e segue lá pra trás. Precisa de ajuda? Ela percebe que uma mulher o acompanha. Que bom, não está desamparado.

O casal volta para frente do ônibus e senta bem naqueles lugares invertidos vagos. Na sua frente. Bem de cara.

O homem muito falante estava animado e falando de uma mulher que estava com eles no ponto de ônibus.

-Você viu como ela ficou surpresa?

Ela respondeu: – Não reparei.

Ele explica: – Ela mudou o tom de voz, ficou trêmula a fala.

Ela ri e demonstra que sua visão e nenhum outro sentido captou a mensagem.

De repente, o homem pega na mão da mulher e como se pudesse a admirar, como se seus olhos a contemplassem, vira o rosto em sua direção, sorri apaixonadamente e a beija. Lhe enche de carinho. Ela com aquele típico sono matinal, retribui mais calma e segue toda a viagem de mãos dadas ao marido.

Dizem que o amor é cego. Pode até ser, mas acho que ele desenvolve outras habilidades e sensibilidades recompensadoras.

Começa aquele momento que na mente ficam as perguntas: como se conheceram, será que estão juntos há muito tempo, será que ele já estava nessa condição? Caso não, como superaram as novas limitações?

Bem, muitas questões surgiram. Aquela linda mulher e seu marido desceram do ônibus e seguiram para seus respectivos trabalhos. Pelo que conversaram, ele sai mais cedo, mas sempre liga para avisar quando está indo para casa.

E mais uma vez, a observadora se perguntou sobre as várias limitações do amor, como ele começa e até onde ele vai e resiste. Quando a gente se permite vive-lo e até onde vamos por ele? Ali, ela sentiu como se nunca tivesse amado e como se não tivesse nenhuma resposta.

Parafraseando: Os que os olhos não veem, o coração SENTE.

Para aqueles que superam suas limitações e fazem com que o amor vença, a nossa admiração.

  • Arguidor amador

    OUTRA PERSPECTIVA

    O começo? Bem… está marcado indelevelmente em minha memória! Era terça-feira à noite. Eu executava o op. 35 de Tchaikovsky no violino – minha música preferida, por sinal –, acompanhado por uma orquestra. O público lotava o terreno, especialmente projetado para espetáculos, cedido pela prefeitura; céu aberto, lua e estrelas marcavam presença.

    Na época, em 1973, eu contava com 17 anos de idade. Rapaz talentoso, diziam alguns, achava ter vivenciado as coisas mais belas. Fui ingênuo. Ledo engano.

    Olhos fechados, a música percorria meu corpo, o instrumento junto à face vibrava sob as notas, ora suaves, ora vigorosas.

    Ao término da longa “performance”, abrindo os olhos, reparando a plateia mais atentamente, deparei-me com a garota mais bela que já vira, sentada na terceira fileira, por quem meu coração descompassou, a garganta secou, o rosto ficou rubro. Decerto os espectadores pensaram tratar-se de mera consequência dos aplausos, da ovação…

    A propósito, chamo-me Gustavo; ela, Beatriz. Nossa história de amor teve início ali.

    Depois, aos 20 anos de idade, minha visão embaçava constantemente. Consultado o especialista, descobri uma doença congênita. A perda total da visão deu-se três anos após o diagnóstico.

    Nada fácil. Beatriz e eu vivemos uma fase complicadíssima. Outrora imensuráveis apaixonados, passamos por uma roda gigante de emoções…

    Contudo nossa crença em algo maior, bem como a dedicação mútua e as artes em geral serviram a contento para podermos superar aquele momento e amadurecer. Repito, não foi nada fácil.

    E assim chegamos àquela sexta-feira nublada. A noite anterior reservara um encontro de amigos para tocar música como antigamente. Logo, apesar das condições climáticas, eu estava radiante!

    Em tempo, precisei mudar consoante a “evolução”: trabalho em um escritório, não mais na música de forma exclusiva. Afinal, no Brasil, raramente se vive da música ou de outras artes. Infelizmente!

    Pois bem. Voltemos. Acrescente-se o fato de a sexta-feira em questão coincidir com a data de aniversário do nosso casamento!

    Eu fingi não me lembrar da data especial. Mas como não?! O arroubo de alegria foi mais forte; declamei uma poesia já no ponto de ônibus. Para surpresa de uma mulher que conosco aguardava o ônibus, a qual me cumprimentou, com voz trêmula de emoção, o desempenho e as ternas palavras que eu falara para a minha esposa. Como se ter deficiência visual fosse um empecilho à capacidade cognitiva.

    Logo o transporte chegou. Beatriz me alertou e acionei a bengala retrátil. Isto e os óculos escuros me valeram as boas graças do motorista apressado. Que gentilmente esperou que eu passasse a roleta… Aí “sentou o pé” no acelerador! Fui parar na parte de trás aos tropeções! Todavia nada atrapalharia meu dia esplêndido. Sorte dele (risos).

    Beatriz, por outro lado, não guardou o desaforo. Brigou com o motorista (interessante este fato não aparecer na narrativa dessa jovem observadora) e me conduziu, a seguir, aos bancos invertidos próximos à catraca.

    Sentados, pus-me a relatar animadamente minha impressão acerca da mulher no ponto de ônibus e de coisas que faria no meu dia “simples, rotineiro”. Ela riu e afirmou não ter reparado na reação da mencionada mulher.

    Ato contínuo, peguei a mão de Beatriz. Uma nova onda de amor veio e não pude me conter: virei o rosto, sorri e lhe beijei. Antes até consegui contemplá-la mais uma vez: com os olhos da mente revivi os momentos em que nossos olhos se encontravam longamente, sem que a escuridão nos separasse.

    Estava calma, como que satisfeita. Suspeito que na verdade sabia da minha vã tentativa de surpreendê-la. Volta e meia a questiono sobre isso, ela dá uma risada e se esquiva da pergunta.

    Ficamos de mãos dadas. Senti um perfume agradável. Mais tarde, em casa, minha esposa diria que proveio de uma jovem muito bonita sentada à frente, a qual também usava uns óculos escuros. Seria semelhante a mim? Não, Beatriz pontuou, a garota parecia cansada, imersa em pensamentos, porém não parava de nos acompanhar com o olhar (o que se supõe, visto que mexia a cabeça quando da progressão dos acontecimentos).

    Dia desses Beatriz encontrou o teu relato sobre aquela sexta-feira e não poderíamos deixar de te contar nossa história de amor e de sanar algumas de tuas dúvidas.

    Respostas completas e para tudo, não as temos. Entretanto, de uma coisa estamos certos: amar vale a pena!

    Três observações finais:

    1ª- Beatriz é professora de química: objetiva, sem ser insensível. Falo disso mais por curiosidade mesmo.

    2ª- Na noite daquela sexta-feira, ao término de nossos trabalhos, fiz-lhe uma visita surpresa na escola em que trabalha, portando flores. Depois jantamos soberbamente, feito nababos (risos)!

    3ª- Peço desculpas antecipadas, pois sei que é politicamente incorreto dizer isso, mas… eu daria um pé para voltar a vislumbrar minha amada em toda sua beleza! Principalmente seus olhos amendoados, em que me perdia… inebriado.

    • roanitta

      Gratidão! Gustavo e Beatriz, meu coração se encheu de alegria e ternura por ler esse lindo relato da história de vocês. Eu que só peguei um ônibus e não queria sair de casa, me deparei com vocês e refleti muito sobre uma área que estava completamente caótica na minha vida: o amor!
      Admiro ainda mais vocês, agora por saber da história completa e não apenas da minha observação de 40 minutos de viagem. Obrigada por deixarem o relato aqui no blog!